A ANATOMIA DA MEMÓRIA: UMA ENTREVISTA COM LEONARDO PADURA
Com o estrondoso sucesso de público e de crítica do romance O Homem que Amava os Cachorros, Padura passou a ser o escritor cubano mais aclamado de seu tempo. No entanto, esse jornalista, ensaísta, crítico e apaixonado por beisebol — esporte que chegou a cogitar praticar profissionalmente — já havia conquistado reconhecimento como exímio autor de romances policiais. Mas não apenas isso. Seus livros são atravessados por outros componentes igualmente vigorosos. Ao lê-los, temos a nítida e correta sensação de estarmos também diante de um aprendizado sobre contextos históricos, políticos e culturais. Embora crítico lúcido do regime cubano, Padura optou por permanecer em Havana, por considerá-la indissociável de seu trabalho literário. Galardeado com prêmios como o Prémio Nacional de Literatura de Cuba e o Prémio Princesa das Astúrias (2015), Leonardo Padura é, sem nenhuma dúvida, um dos escritores mais importantes da língua espanhola contemporânea, enriquecendo e ampliando ainda mais o idioma de Cervantes.
Entrevistadores – Cuba sofreu um êxodo de proporções bíblicas nos últimos anos. Parafraseando Santiago Zavala, personagem de Conversa no Catedral, de Mario Vargas Llosa, pergunto: em que momento a Revolução fracassou?
Bem, assim como Zavalita, a personagem de Vargas Llosa, ou como o próprio Vargas Llosa, eu não saberia dizer exatamente onde se marca o momento de um fracasso histórico. Porque os processos sociais raramente têm um único ponto de colisão, embora muitos pontos de inflexão, mais ou menos visíveis, estejam presentes. Posso dizer, como expressa uma personagem do meu romance Morrendo na Areia, que a história contada no livro é a “crônica de uma derrota”. Enfim, vou apresentar dois ou três pontos: quando a União Soviética desapareceu, e com ela o principal pilar econômico do país, perdeu-se a oportunidade de revolucionar tudo e explorar outros caminhos (como os que estão sendo tentados agora, que, a meu ver, são tardios). Não se pode pensar que um projeto social seja eterno, e a Constituição cubana perpetua o socialismo como opção nacional. A falha em mudar de rumo a tempo, em diversas ocasiões, levou ao atual impasse, que foi exacerbado pelas políticas imperialistas e altamente agressivas do governo dos Estados Unidos.
Entrevistadores – Durante o período de sua formação intelectual e literária, havia temas que o regime não tolerava? Em caso afirmativo, como o senhor contornava essas restrições sem comprometer a sua liberdade de criação?
Não, nenhuma. Escrevi o que pensei e o que fui capaz de escrever de acordo com minhas necessidades e habilidades. Isso não significa que eu não tenha tido problemas com certos níveis de censura, como a censura aplicada a um dos meus romances, que o júri considerou que deveria ter ganhado um prêmio, mas os organizadores do concurso vetaram, ou a censura do filme Returno a Ítaca, para o qual eu escrevi o roteiro. Em todo caso, muitas vezes tive que olhar para o lado ao escrever sobre assuntos desconfortáveis para a ortodoxia oficial e me preparar para enfrentar as consequências. E, de fato, paguei por isso com a “invisibilidade” social e literária à qual fui submetido em meu país.
Entrevistadores – Proveniente de um país de riquíssima tradição literária, o senhor alcançou reconhecimento mundial. Ainda assim, já afirmou que precisa de Cuba para escrever e, por isso, permanece em Mantilla, seu bairro de Havana. O que Cuba — e, em especial, Mantilla — representa para o seu processo criativo e para a sua identidade como escritor?
Este é o lugar no mundo onde sou verdadeiramente eu mesmo. Aqui estão minhas origens, minhas experiências formativas e o aprendizado de muitos conceitos importantes, como fraternidade, solidariedade, amizade e caridade. Aqui, além disso, tenho a realidade ao meu alcance, e muito mais... Veja, agora mesmo, antes de responder a esta entrevista, eu estava tirando água de um poço porque no meu bairro (e em muitos outros da cidade) não temos água encanada da rede pública há semanas. Essa experiência, por mais que eu a imagine, não poderia realizá-la morando no exterior e seria difícil para mim incluí-la na minha literatura. Aqui tenho Cuba completa, com as suas esperanças e frustrações, com as suas maravilhas e perversões.
Entrevistadores – No seu livro Água por todos os lados, você confessa de modo divertido no texto Eu queria ser Paul Auster que, ao comparar as perguntas feitas ao célebre escritor norte-americano com as que são feitas a você, sente certa inveja. Assim, qual ou quais as perguntas que você queria que lhe fizessem e nunca foram feitas? E por quê?
Acho que deixei isso claro naquele texto. Com muita frequência, me perguntam sobre política e sociedade cubanas, e com menos frequência sobre meus escritos, meu processo criativo, ou até mesmo tópicos mais leves como beisebol (sei muito sobre beisebol) ou cinema, por exemplo. E sei que sou parcialmente culpado por isso, já que meus escritos e meu jornalismo suscitam esse tipo de pergunta, mas a verdade é que não sou um guru, um economista ou um sociólogo; sou apenas alguém que observa a realidade e tenta escrever sobre ela.
Entrevistadores – Em seu célebre estudo sobre Juan Carlos Onetti, El Viaje a la Ficción, Mario Vargas Llosa aponta que a ficção “[...] nos acompaña como nuestro ángel de la guarda desde que allá, en las profundidades de la prehistoria, iniciamos el zigzagueante camino que, al cabo de los milenios, nos llevaría a viajar a las estrellas, a dominar el átomo y a prodigiosas conquistas en el dominio del conocimiento y la brutalidad destructiva, a descubrir los derechos humanos, la libertad, a crear al individuo soberano”. Nesse sentido, o que significa para você a ficção? Qual o papel do ficcionista em um mundo cada vez mais dominado pela imagem e pela alienação?
Puxa, você está me colocando numa posição difícil com essa citação de Vargas Llosa… mas serei mais conciso: a ficção é uma criação da realidade que toma forma com palavras que expressam ideias do que se quer dizer ao criar um romance, que é um mundo habitado por personagens que não são pessoas, mas se comportam como se fossem. A ficção é a liberdade de imaginar, criar e comunicar coisas que outras disciplinas, como história, sociologia ou, especialmente, o discurso político, não conseguem. Acho que é por isso que sou romancista, não é?
Entrevistadores – Ao comentar certa vez sobre seu livro Hereges, você confessou que “a boa literatura, a literatura que provoca inquietação e faz pensar, tem um componente herético”. Assim, o que é, para você, essa heresia, quais foram os grandes heréticos da literatura que mais o influenciaram e em quais autores contemporâneos você vê hoje esse mesmo componente herético?
Suas perguntas são incríveis! Imagine se eu tentasse fazer essa lista; eu passaria uma semana escrevendo para torná-la o mais completa possível… Existem autores hereges, como o próprio Vargas Llosa, que me ensinou muito, assim como García Márquez, Carpentier, Cabrera Infante, Fernando del Paso, só para citar alguns autores da minha língua, e todos eles são essencialmente hereges, porque a heresia faz parte da grande criação literária. Entre os hereges do romance policial, posso incluir Hammett e Chandler, é claro, mas também Manuel Vázquez Montalbán ou Rubem Fonseca. Entre os clássicos… Dostoiévski, Flaubert, Kafka… e outros que admiro muito, como Hemingway, John Dos Passos, Carson McCullers, Faulkner… enfim, todos os bons escritores que li e dos quais aprendi algo: quebrar regras só é válido se você as conhece e é herege ou heterodoxo o suficiente para se sentir à vontade correndo o risco de ser mal interpretado e até mesmo censurado.
Adonay Ramos Moreira é advogado e
escritor

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